quinta-feira, 25 de setembro de 2014

“Quando for grande quero ser… hum, hum, já sei! ELEFANTE!”

As listas de material escolar crescem com as nossas crianças, de ano para ano são sempre maiores. O dossier era um dos itens da lista deste ano e havia um requisito adicional, teria que ser decorado em conjunto pelos pais e filhos. Eu que tenho sempre a cabeça a fervilhar de ideias, desta vez estava em branco (acontece poucas vezes!).
Mas nesse dia ia na rua com o Simão pela mão, quando começámos a falar sobre profissões. Perguntava ele: “E a mamã o que é?”, “E o papá?”, “Ah, o que é cientista, mamã?”, “Quando for grande quero ser… hum, hum, já sei! ELEFANTE!”. Não podia deixar passar esta!
Desenhei um elefante, recortámo-lo e ele pintou-o com pouca a dedicação para artes que lhe é característica, ao mesmo tempo que piscava o olho aos desenhos animados que passavam na televisão. Juntámos uns recortes de papel ilustrado, washi tape e uns balões em que escrevi a dita conversa. Daqui a uns anos vai ser giro recordar as ideias fantásticas que ele tem aos três anos!
Ah, esquecia-me de acrescentar que com a mesma idade eu queria ser trapezista. Ninguém diria que tenho imensas vertigens!


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Por fim regressámos

Quero guardar a imagem de Taormina como um dos sítios mais bonitos onde já estive. A cidade que não se via ao longe, que parecia quase inacessível, é espantosa e cosmopolita, como há poucas na ilha. As casas pintadas em vários tons de ocre, laranja e rosa estavam quase todas floridas. Ao longe, sempre vigilante, avistava-se o vulcão, e perto, bem perto, o mar de um azul tão intenso, como eu nunca tinha visto.
Um passeio pelas ruelas e escadinhas levou-nos ao teleférico, que por sua vez nos levaria até ao mar.  Embora as praias da Isola Bella sejam de seixos, a recompensa que se tem ao chegar à água é inigualável. Quente e transparente como o cristal, peixes coloridos por todo o lado, ficaria ali de molho para sempre!
Ainda houve tempo para subir ao Etna, o único vulcão em actividade da Europa. A paisagem é negra e imponente, está em constante mutação.
O  Parque Arqueológico Neapolis estava bem perto de nós, em Siracusa, por isso mesmo ficou para último. Na versão do pequeno turista que eu levava pela mão, os anfiteatros gregos e romanos serviam para fazer festas de Natal e de final de ano. Eram festas fantásticas, até tinham leões e elefantes! Não o corrigimos, a imaginação serve para isso mesmo.
Chegou finalmente o dia em que a tão desejada viagem de regresso foi marcada. Em menos de nada, os brinquedos de casa voltaram a ser desarrumados e a escola recomeçou.








quinta-feira, 18 de setembro de 2014

"Manicela" à solta na Sicília

Viajar com crianças é um desafio, mas o Simão faz parte da nossa bagagem desde que existe. Nunca lhe negaríamos a oportunidade de abrir os olhos para o mundo. Rapidamente chegámos à conclusão de que viajar com ele pode não ser complicado, afinal há crianças em todo lado!
Sempre foi muito fácil. Enquanto mamava as refeições dele estava permanentemente prontas e aquecidas. Quando deixou de o fazer, começámos a comprar boiões de sopa no supermercado e fruta fresca. Juntando água a ferver aos boiões, eles ficam com uma textura relativamente agradável. Come desde muito cedo fruta com casca e o que ele gosta de comer uns bagos de uva dentro do copo de lavar os dentes!
No entanto, esta última viagem trouxe-nos uma novidade com a qual não contávamos: varicela ("manicela", segundo o próprio). Ao terceiro dia de viagem acordou, olhou-se ao espelho e disse: "Oh não, hoje não estou lindo!"; as borbulhas não engavam. Uma visita ao médico confirmou. Estávamos em Siracusa, felizmente o lado oriental da ilha é definitivamente mais apelativo.
Ortígia é uma pequena ilha, mas curiosamente é o centro de Siracusa, a cidade mais próxima. Tem as lojas mais giras, os melhores sítios onde comer e é lá que mora o mercado da cidade. Lembro-me de um noite quente em que jantámos num restaurante, cuja sala de refeições era um terraço. Esse terraço era enorme repleto de laranjeiras. Era noite e fazia muito calor. Enquanto comíamos pizza e ouvíamos os pedidos num italiano corrido, quase incompreensível, choviam flores de jasmim dentro dos nossos pratos.
Por lá teríamos que continuar até nos deixarem regressar.







quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sicília (parte I)

Vou contar um pouco da nossa recente viagem, mas terá que ser por partes!

A escolha da Sicília como destino de viagem foi mais ou menos consensual. Cá em casa há sempre um que puxa para a civilização e outro que puxa para a aventura (eu!).

Naquela zona de Itália atraíam-me as heranças históricas de tantas civilizações que por lá passaram, o dolce far niente muito mais notório do que em qualquer outra região italiana, a temperatura da água e a comida, por ser resultado de tantas confluências.

O calor intenso e seco que senti ao sair pela porta do avião, deixou-me incapaz de apreciar aquela terra cor de terra e de ver qualquer tipo de beleza na paisagem quase desértica.

Daquele dia guardo a imagem aterradora do único pôr-do-sol sobre o mar que vi na Sicília (assisti a todos os outros no outro lado da ilha), o sabor de uma gelado gigante habilmente acomodado num brioche igualmente grande e as memórias de uma pasta con le sarde, que não esquecerei tão cedo.

Em Palermo percorremos o mercado, enquanto os meus olhos saltitavam de banca em banca, dos legumes, para as frutas, dos peixes para as ervas... Aquilo era a verdadeira Sicília. Teria sido óptimo ter um local onde pudesse confeccionar todos os ingredientes que por ali encontrava, muitos deles completamente desconhecidos. Comprámos figos-da-índia e só depois percebemos que essa será por ventura a fruta mais vulgar por aquelas paragens.

A primeira ida à praia não deixou boas recordações. Debaixo de um sol abrasador, teria sabido bem que a água fosse fresca, mas não, estava quase tão quente como o ar. O areal era surpreendemente sujo e muito mais pequeno do que imaginara. Talvez as outras fossem diferentes, pensei eu!

Olhei para a gradiosidade do Vale dos Templos com a visão deturpada pela imagem de Agrigento. Por certo, quando os gregos ali estiveram, não existia uma cidade tão pouco atraente nas proximidades. Abstraindo-me disso, fico na dúvida se é o misticismo do vale que torna os templos tão fantásticos, ou se são estes que tornam o vale tão místico.

Não sairíamos da Sicília tão cedo, mas não sabíamos disso.











quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O menino dos meus sonhos

Não sabia desta aguarela há muitos anos, já mal me lembrava dela e de tantas outras que pintava durante as férias da faculdade. Pintava por tudo e por nada, mas quase sempre miúdos e brincadeiras de miúdos.

Hoje o Nuno encontrou a aguarela do menino e perguntou-me porque não a púnhamos no quarto do Simão.
Sem pensar duas vezes, peguei na aguarela e coloquei-a na parede enquanto o Simão dormia a sesta. Reparei então na data, pintei-a há precisamente quinze anos e dois dias, reparei também que o menino que olha para a água com o barco à vela na mão, é igual ao Simão, que coincidência! Afinal este menino que hoje dorme a sesta num dos quartos da minha casa e que é meu filho, já morava nos meus sonhos há muito tempo.

Subitamente deu-me uma vontade imensa de voltar a pintar.




carminhoesimao@gmail.com